Uma das maiores covardias que podemos cometer é a desonestidade intelectual. No momento em que os ânimos se acirram na véspera de mais uma eleição, é comum vermos a prática da disseminação da ignorância sem pudores.
Um dia desses me chamou a atenção uma publicação dessas de redes sociais: “Onde o socialismo deu certo?”. Abaixo, uma foto da capital cubana, Havana, antes de 1960 e outra nos anos 2000, com a arquitetura já desgastada. Só faltou ao usuário explicar o contexto.
Embargos, ditaduras e o rótulo de socialismo
O assunto é longo e, entre outras coisas, é bom lembrar que avaliar a situação de Cuba, da Venezuela e de vários outros países com o povo em dificuldade, sem levar em conta os embargos econômicos impostos pelos xerifes do mundo, os Estados Unidos, é um descalabro. No caso de Cuba, começou em 1962 e dura até hoje.
Cuba era um grande cassino e prostíbulo a céu aberto de americanos ricos e pedófilos. A Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro, pôs fim a essa aberração e, obviamente, isso desagradou a sociedade “conservadora e cristã” dos EUA. Com o embargo, oficialmente, países ficaram proibidos de negociar com os cubanos e de negociar com eles alimentos, roupas, carros, remédios etc.
Então há seis décadas cubanos vivem na miséria patrocinada pelos EUA. A mesma situação na Venezuela, com os embargos impostos em 2015. No começo de 2026, o país foi invadido por tropas estadunidenses, o ditador Nicolás Maduro foi preso e o governo dos EUA anunciaram que vão tomar o petróleo da Venezuela por 100 anos.
Nesse teatro de horrores fica fácil dizer que o “socialismo falhou”, quando na verdade nem sequer socialistas esses países eram; no máximo tiveram ditaduras fantasiadas de socialismo. Entendam de uma vez por todas: na sua essência, socialismo e comunismo nunca foram implantados oficialmente em nenhum país. Tudo que teve até hoje foram governos que se diziam socialistas ou comunistas, mas que na verdade criaram seus próprios regimes.
A China, até hoje, é comunista no nome e tem uma economia de mercado que já engoliu a União Europeia inteira e, conforme dados dos economistas, já ultrapassou os EUA capitalistas, um império, por certo, em crise visível e irreversível.
Como já disse, o assunto é longo e não tenho pretensão de ser professor de ciências políticas. Se você quer aprofundar mais nisso, recomendo que leia um compilado chamado “As Grandes Obras Políticas: de Maquiavel a Nossos Dias”, de Jean-Jacques Chevallier.
O capitalismo que “deu certo”: o exemplo dos EUA
Mas vamos ao entendimento da realidade. O capitalismo é um excelente marqueteiro em dizer que funciona. Só não explica a seletividade dos que deram certo. Se nasce rico, herdeiro, tudo bem. Se não nasce, só chega lá quem é exceção. Riqueza abrange recursos limitados e não infinitos.
Sem lugar para todos ao sol, empurram-se milhares de vidas para os subúrbios, periferias e favelas. No país símbolo do capitalismo que deu certo, atualmente há uma legião incalculável de usuários do opioide fentanil, pior que o crack no Brasil. A estimativa é que a droga mate cerca de 40 mil pessoas por ano, conforme dados do CDC (Centro de Controle de Doenças) nos EUA.
Além disso, o Departamento de Habitação dos EUA (HUD) estima que 400 mil pessoas, em 2026, vivem dentro de seus veículos estacionados nas ruas ou nas proximidades de redes de academias, porque não conseguem pagar aluguéis. Trabalham durante o dia, comem fast food, tomam banho em redes populares de academias e dormem nos seus veículos, parados em estacionamentos gratuitos. Então é esse o capitalismo que deu certo? E não vou entrar em detalhes sobre os custos de tratamentos de saúde, quando as pessoas precisam. Disso vocês já sabem, suponho. Senão, pesquisem quanto custa tratar uma fratura de braço. Ou um parto normal nos EUA.
Chile e Argentina: aposentados e o custo do liberalismo
Estive no Chile por duas vezes entre 2022 e 2023. Vi aposentados passando fome porque o ditador Pinochet, com sua política liberal liderada pelos “Chicago Boys”, turma da qual Paulo Guedes (ex-ministro da Economia de 2019 a 2022) fez parte, privatizou a previdência.
Resultado? O trabalhador contribui a vida toda e, quando se aposenta, tem um período de 20 anos de benefícios. Ao fim deste, caso esteja vivo, perde qualquer provento e passa a depender de filhos, outros familiares, ou passa a viver na miséria absoluta. No Chile é comum ver idosos em atividades subumanas. Mas é o “capitalismo que deu certo”. Só que não. Nem vou citar a privatização da água no Chile, que gerou uma aberração; pesquise.
Também estive na Argentina e vi aposentados passando fome, com aposentadorias cortadas pela metade pelo governo Milei. Modelo que o candidato Flávio Bolsonaro já avisou que trará para o Brasil. É o capitalismo que deu certo. #SQN.
Keynes, Obama e o papel do Estado
Longe de mim ser uma pessoa de esquerda ou de direita; me identifico como centro-esquerda. Embora nunca tenha recebido qualquer tipo de bolsa do governo (e meu CPF está liberado para consulta), acredito no papel do Estado pregado por John Maynard Keynes, como fomentador de desenvolvimento.
Quando Barack Obama assumiu a presidência dos EUA capitalistas, em 2009, em meio à crise gerada pelo estouro da bolha imobiliária e bancária, disse uma frase keynesiana lapidar: “Só o Estado pode salvar a América”.
A estupidez, segundo Bonhoeffer
Por fim, que sejamos menos estúpidos. Aliás, a estupidez é pior do que a maldade, como descreveu em “Resistência e Submissão” o teólogo e pastor luterano alemão Dietrich Bonhoeffer. Enquanto estava preso em um campo de concentração alemão em 1943, ele observou que a estupidez não é um problema de QI ou deficiência intelectual.
Pessoas muito cultas, cientistas, professores e universitários podem ser estúpidas no sentido moral e social. É mais ou menos o que ocorre quando pessoas fazem comparações estúpidas entre capitalismo e socialismo sem ter ideia do que isso significa ou de como e por que Cuba e Venezuela estão como estão, cercadas ou saqueadas. Algo que pode ocorrer com o Brasil em breve, a depender do resultado do segundo turno, dia 25/10/26.





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